domingo, 28 de dezembro de 2008

Liberdade



Estou em viagem de férias. Após dez dias de sol e calor nas praias de Natal/RN, enfrento agora a chuva e o frio em Belo Horizonte, a bela capital mineira.

Escrevo, enquanto lá fora as gotas de água, de forma simples e natural, realizam a função para a qual foram criadas.

A chuva, ao cair sobre a terra, não quer nada em troca.

Não busca alcançar algo e, por isso, não sofre com o anseio do ganho.

Não pensa nos benefícios da sua ação, nem tampouco nas coisas que serão beneficiadas por ela.

Não se acha diminuída por reverenciar homens e animais, lavando-lhes e refrescando-lhes os pés em forma de riachos e fontes.

Em sua expressão líquida, está presente em tudo e nem por isso se vangloria da Natureza.

Não deseja ser importante, nem tampouco especial.

Apenas cai de forma livre, sem condicionamentos, e graças a essa liberdade a vida brota sobre a terra...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ir Real


Desperto do sonho de viver. O real
É como um espectro que vaga em mim,
E sem rumo, navego o mar do (ir)real,
Instigante, misterioso e sem fim.

Ergo o véu da rotina, e meu olhar,
Cansado do finito, atrai o céu
Enquanto a terra segura, de além mar,
Zomba de mim, barco á deriva, ao léu.

Brada o corpo inconsútil a súplica:
Ó terra, devolva-me às estrelas
Pois a mim essa vida não se aplica.

Sou (ir)real. Sou (ir)real. Não existem formas
Que me caibam assim tão vago e aflito.
Quero espedaçar-me contra o infinito.

© Who – Brasília/DF

domingo, 9 de novembro de 2008

Mente de Principiante


"Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito."

As pessoas dizem que é difícil praticar Zen, mas há um mal-entendido quanto ao "porquê". Não é difícil porque seja árduo sentar-se de pernas cruzadas ou atingir a iluminação. É difícil porque é árduo manter a mente pura ou a prática pura em seu sentido fundamental. A escola Zen desenvolveu-se de muitas maneiras depois de estabelecida na China mas, ao mesmo tempo, tornou-se cada vez mais impura. Contudo, não é sobre o Zen chinês ou sobre a história do Zen que eu quero falar. O que me interessa é ajudar você a manter sua prática livre da impureza.

No Japão, dispomos do termo shoshin, que significa "mente de principiante". O objetivo da prática é conservar nossa "mente de principiante". Suponhamos que você recite o Prajna Paramita Sutra uma só vez. Poderia ser uma boa recitação. Mas o que lhe acontecerá se o recitar duas, três, quatro ou mais vezes? Você poderia facilmente perder sua atitude original em relação a ele. O mesmo acontecerá com suas outras práticas Zen. Por algum tempo você manterá sua mente de principiante, porém, se continuar a prática um, dois, três anos ou mais, embora você possa melhorar em alguns aspectos, é possível que perca o sentido ilimitado da "menteoriginal".

Para os estudantes do Zen, o mais importante é não serem dualistas. Nossa 'mente original" inclui em si todas as coisas. Ela é sempre rica e auto-suficiente. Você não deve perder esse estado mental auto-suficiente. Isto não significa uma mente fechada e sim, na verdade, uma mente vazia e alerta. Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito.

Se você discrimina demais, você se limita. Se é exigente ou ambicioso em excesso, sua mente não é rica nem auto-suficiente. Se nossa mente perder sua auto-suficiência original, todos os preceitos se perderão. Quando sua mente se torna exigente, quando você anseia por algo, você acaba por violar os preceitos: não mentir não roubar; não matar, não ser imoral e assim por diante. Se você conservar sua mente original, os preceitos se manterão por si próprios.

Na mente do principiante não há pensamentos do tipo "eu alcancei algo". Todos os pensamentos egocentrados limitam a vastidão da mente. Quando não alimentamos pensamento nenhum de conquista, nem pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos então aprender alguma coisa de fato. A mente do principiante é mente de compaixão. Quando nossa mente é compassiva, torna-se ilimitada. O mestre Dogen, fundador da nossa escola, sempre enfatizou a importância de preservar nossa mente original ilimitada. Com ela somos verdadeiros conosco, estamos em comunhão com todos os seres e podemos, de fato, praticar.

Assim, a coisa mais importante é manter sua "mente de principiante". Não há necessidade de ter uma profunda compreensão do Zen. Mesmo que você leia muita literatura Zen, deve ler cada frase com uma mente virgem. Nunca deve dizer: "Eu sei o que é Zen' ou "eu atingi a iluminação". O real segredo das artes também é esse: ser sempre um principiante. Seja muito cuidadoso nesta questão. Se começar a praticar zazen, você começará a valorizar sua mente de principiante. Este é o segredo da prática do Zen.


Extraído do livro Mente Zen, Mente de Principiante - Shunryu Suzuki

domingo, 26 de outubro de 2008

Vivendo Zen

Viver Zen não significa se retirar do mundo. Ao contrário, significa ser devolvido ao mundo, com um novo olhar, uma nova percepção. Viver Zen é descobrir novas luzes em tudo que fazemos, por meio da satisfação da consciência plena.

No Zen, o maior milagre é sentar-se em silêncio consigo mesmo e simplesmente perceber que as coisas são como elas são, como realmente são. Isso faz a vida ser suficiente. Talvez, fosse o que o inspirado apóstolo Paulo de Tarso quisesse nos dizer quando afirmou "Aprendi a contentar-me com o que tenho".

Se não conseguimos descobrir o sentido da vida num simples ato da nossa rotina diária, como, por exemplo, lavar pratos, certamente, este sentido não será descoberto em lugar algum, pois aquilo que é aparentemente finito-comum está cheio do infinito-divino.

Vivemos sob a égide de opostos, aparentemente antagônicos: falso-verdadeiro, finito-infinto, aceitação-rejeição, vida-morte, ódio-amor, etc. E não nos damos conta de que essa aparente polarização ou dualidade é apenas uma faceta da unidade. Uma unidade que permeia tudo e todos, e torna os opostos complementares.

Neste sentido, a experiência direta - do tipo "faça você mesmo" - pode conciliar em nós a aparente contrariedade dos opostos que a vida nos apresenta. Para isso, é preciso viver a plenitude de cada momento, sem expectativas. Viver cada minuto, cada hora, cada dia, como se fosse o último: esse o segredo do viver Zen.

E isso ocorre quando compreendemos que o tempo é meramente uma ilusão. A preocupação com a noção de tempo (hoje, amanhã, ontem) dá início a uma prática egoísta. Passamos a viver das experiências acumuladas na memória, por meio de comparações, expectativas e ansiedades. Não conseguimos observar a natureza real das coisas, sem pré-julgamentos e nem preconceitos. A partir daí nasce o sentimento de separatividade, de diferença entre nós, os outros e as coisas que nos rodeiam. Esse é o mundo da mente-ego, geradora da ilusão da Matrix que nos aprisiona na roda viva do Carma.

Quando nos libertamos dos grilhões dessa falsa percepção do tempo, e passamos a viver o momento presente – aqui e agora – surge então o reto agir, fluindo sem obstáculos, levando-nos sempre adiante e transformando nossas vidas em instantes de beleza e bem-aventurança. Esse é o estado que o mestre Shunryu Suzuki denomina de mente de principiante, a mente em sua pureza original, livre dos reflexos e hábitos milenares do ego.

Somente assim, saboreando intensamente a beleza presente em cada instante, nos tornamos nós mesmos. E isso não é uma prática fácil, devido aos condicionamentos milenares, herdados do ego. É preciso um grande esforço. No entanto se formos perseverantes e disciplinados, sem desejos a alcançar e sem renúncias a fazer, dia virá em que essa percepção se estenderá a todos os momentos da nossa vida, e não apenas durante a meditação.

Isto ocorre porque o ego se esvai a medida que a consciência se torna plena do agora. Observar continuamente a atuação do ego no palco do dia a dia é um grande antídoto contra a ilusão, uma grande prática para viver Zen. Quem está com raiva? Quem está angustiado? Quem está feliz? Quem deseja isso? Quem se alegra com esse elogio? Quem sou eu? A observação de sentimentos e pensamentos leva ao enfraquecimento da ação do ego sobre nossas vidas, na medida em que já não agimos mais de forma inconsciente, ao sabor das ondas do impulso e do desejo. Tomar consciência da existência do ego significa o início da sua absorção pelo Ser, já que em todas essas situações a testemunha ou observador é o próprio Ser.

Outro exercício importante, muito utilizado na meditação zen (zazen), é sentar-se com a coluna ereta, de olhos fechados, semicerrados ou abertos, e prestar atenção na energia vital fluindo através do corpo.

Isso se explica pelo fato de que uma das formas mais básicas do ego é a identificação do ser humano com seu corpo. Portanto, o hábito de sentar e observar a energia vital que flui em todas as partes do corpo (pernas, braços, abdômen, tórax, etc.), curiosamente, de forma paradoxal, faz com que a pessoa, pouco a pouco, deixe de se identificar com a forma (corpo e mente), e comece a perceber que sua essência transcende o mundo da mente-ego.

À medida que isso ocorre, insights diários, provocados pela dimensão divina, que sempre esteve presente em nós, vão dissipando as brumas da ilusão do ego, guiando-nos em direção à plenitude do vazio, ao sem forma, ao Ser, à essência divina que realmente somos. Tomar consciência do corpo, durante a meditação e também ao longo do dia, não apenas nos ancora no momento presente, como também é uma passagem para fora da prisão do ego.

Isto é viver Zen.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Reflexões em trânsito



Templo Zen Pico dos Raios


A verdadeira busca reside na compreensão de quem somos. Não uma compreensão intelectual, científica, filosófica ou mesmo religiosa, mas a experiência real, diária, o mergulho consciente na essência, no Ser. Perceber a fonte, a origem, onde somos um com o Pai, não depende do acúmulo de conhecimento ou cultura, já que estes são produtos da mente, e esta, por sua vez, origina-se do ego, causa maior de toda ilusão da matrix que nos aprisiona. É preciso transcender o universo dos pensametos, das idéias, do intelecto, da lógica, dos desejos, das palavras, e deixar-se absorver pelo silêncio, pela vacuidade do Ser. Este silêncio muito longe de ser passivo, ao contrário é dinâmico, pois permite-nos sentir conscientemente a intensidade do instante presente, ignorando o passado e o futuro, que são vícios mentais, meras ilusões geradas pela insegurança e pelo medo do ego em perder o controle sobre nossas vidas. O agora é a única realidade que temos. Esse insight consome a busca ao diluir na realidade do Ser a Matrix ilusória na qual estamos enredados. E o melhor é que isso não depende do lugar onde estamos (o ser está em toda parte), nem tampouco dos "ísmos" ou "ístas" que porventura tenhamos um dia professado. Quando chegamos neste ponto da existência, um sorriso brota espontâneo, ao se compreender que nunca existiu busca, nem caminho, nem caminhante, nem tampouco o ato de caminhar e muito menos a meta, pois tudo isso são apenas facetas de uma só realidade: o SER que permeia tudo e todos.

Nota: estou em trânsito por Belo Horizonte, passando férias com minha filha. No domingo, vamos a um mosteiro zen budista, a 1.550 metros de altura, chamado Pico dos Raios, em Ouro Preto/MG. Ficaremos lá durante seis dias, e logo após retornaremos a Brasília.

Gasshô

segunda-feira, 17 de março de 2008

Alquimia



Olho para o céu
das minhas convicções

onde Tuas mãos desenham
diáfanas analogias

que mudam de forma
a cada instante

E eu que antes
tudo sabia

agora

sou neófito
do silencio

e sofro a Tua alquimia.

sábado, 8 de março de 2008

Chá verde com uma pitada de reflexão...


Prazer e dor são apenas aspectos da mente. A nossa natureza essencial é a felicidade. Mas nós esquecemos o Eu e imaginamos que o corpo ou a mente são o Eu. Essa identidade equivocada é que dá ensejo ao sofrimento. O que fazer? Esta tendência mental é muito antiga e prosseguiu ao longo de inúmeros nascimentos anteriores. Consequentemente fortaleceu-se. Precisa acabar antes que a natureza essencial, a felicidade, reivindique seus direitos. Ramana Maharishi

Semana passada, antes de dormir, tomava chá com minha filha de 15 anos, e conversávamos sobre as artimanhas utilizadas pelo ego para não ceder espaço ao Eu superior em nossas vidas.

Em dado momento, entre um gole e outro de chá verde, ela diz: - Pai, lembra o ano passado quando eu fiz quinze anos e fui para Disney? Pois é... Você e a mamãe se surpreenderam por que eu gastei pouco por lá e voltei com boa parte do dinheiro que levei... Minhas colegas gastaram tudo que levaram em compras, mas eu achei muita coisa inútil por lá e então resolvi comprar só o essencial... Será que existe algo de errado comigo? Na minha idade eu não deveria ser mais consumista? Sinto-me às vezes um peixe fora d’água no meio de minhas amigas...

Olhei para ela, tomei mais um gole de chá verde e sorri afetuosamente.... Segue abaixo um resumo das nossas reflexões naquela noite.

O ego se mantém ativo no governo de nossas vidas graças a várias crenças ilusórias. No diálogo acima, pode-se identificar uma dessas crenças, talvez a principal delas, que domina de forma absoluta a sociedade contemporânea: “Mais é melhor”.

A incessante busca do ser humano por mais transformou-se na doença do século, contaminando o mundo de conflitos incessantes, pois como pode haver paz nesse mais-é-melhor?

Analisemos a lógica ilusória da mente egóica que é o alicerce da vida do homem contemporâneo: - Para estarmos satisfeitos devemos estar ocupados, buscando ganhar mais dinheiro do que ganhamos atualmente, e para isso precisamos ser promovidos a fim de alcançarmos sucesso na vida e assim provamos nosso valor.

Viver a vida no círculo vicioso do mais-é-melhor, nos prende exclusivamente ao domínio da dimensão física, excluindo o Eu superior da nossa vida cotidiana, pois a energia interior é inteiramente canalizada para acumulação, aquisição, busca de recompensa, troféus, aplausos, reconhecimento e dinheiro.

E o pior de tudo isso é que esse jogo de escravidão engendrado pela Matrix ilusória do ego nos é ensinado desde muito cedo. A partir da escola aprendemos que somente o primeiro lugar importa, que é preciso sempre ir atrás de graus mais elevados, diplomas adicionais e títulos exteriores que, se de um lado reconhecem o ego, de outro obscurecem o Ser.

E essa loucura do mais-é-melhor é tão habilmente vendida pela mente egóica, que aqueles que não se adaptam a ela começam a se achar problemáticos, com sentimento de culpa, vergonha e até mesmo remorso, pensando que possuem algum desvio psicológico ou mental por não viverem lutando por mais.

No bojo do mais-é-melhor, existe a identificação do ego com o objeto do seu desejo. Essa associação com objetos e pessoas é construída na própria estrutura da mente egóica e leva ao desenvolvimento de sentimentos perniciosos e ilusórios tais como a posse e o apego.

É isso que faz uma criança chorar e sofrer quando perde ou lhe tiram um brinquedo. Não importa se é uma criança rica ou pobre, nem tampouco se é um brinquedo caro ou apenas um pedaço de madeira utilizado à guiza de um cavalo de pau: o sofrimento pela perda é o mesmo. E a causa dessa dor está na identificação do ego com o brinquedo, e está oculta na palavra “meu”.

E quando crescemos essa compulsão inconsciente pela posse faz com que nos identifiquemos com tudo ao nosso redor. Se na infância era o meu brinquedo, na fase adulta é o meu carro, meu corpo, meu apartamento, minha casa de campo, minhas roupas, meu cargo na empresa, meus amigos, meus filhos, minha esposa e meu marido.

Tentamos nos satisfazer e nos encontrar nas coisas exteriores, mas acabamos nos perdendo nelas. Esta é a sina do ego: viver sempre insatisfeito.

Para fugirmos desse círculo conflituoso e cheio de sofrimento chamado mais-é-melhor e atingirmos a paz que flui da nossa natureza última – a felicidade – precisamos abandonar todas essas crenças arquitetadas pelo ego e transmitidas de geração para geração, como se fossem premissas para se alcançar o ilusório sucesso na vida.

Quando nos esvaziarmos dessas ilusões, nosso espaço interior será preenchido pela plenitude do Eu Superior, onde não existem identificações e nem tampouco desejos pois ali é a morada da felicidade e nela todos os desejos estão satisfeitos.
Referências: